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Famílias brasileiras comprometem quase 30% da renda com dívidas

Dívidas consomem metade da renda em 19% dos lares brasileiros; especialista aponta as contas que entram no orçamento e as que levam à inadimplência

A inadimplência das famílias brasileiras recuou em setembro, mas o orçamento doméstico continua pressionado. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 29,6% das famílias tinham contas em atraso no mês, ante 29,9% em agosto. No mesmo período, o comprometimento médio da renda com dívidas subiu de 29,3% para 29,6%, e o tempo médio de atraso chegou a 65,3 dias, o maior desde novembro de 2024.

Outro dado chama atenção: 19,4% das famílias comprometem mais da metade da renda com dívidas. Entre as que ganham até três salários mínimos, 38,5% tinham contas em atraso. Ou seja, a queda da inadimplência não significa mais folga no orçamento.

Por que, então, algumas dívidas cabem no orçamento e outras levam ao atraso? Para Marco Afonso, especialista de negócios da Simplic, a primeira plataforma de crédito pessoal 100% online do país, a resposta não está só no valor devido. Depende de quanto a parcela representa da renda, do prazo, dos juros e dos outros compromissos já assumidos. “A combinação desses elementos pode determinar se uma obrigação continuará administrável ou se passará a comprometer o pagamento de outras contas”, diz.

O erro mais comum é olhar apenas para a parcela. “Imagine uma família com renda mensal de R$ 2.500 e despesas essenciais de R$ 1.500. Se ela já destina R$ 500 a empréstimos e compras parceladas, restam R$ 500 para gastos variáveis e imprevistos. Ao assumir uma nova parcela de R$ 200, essa margem cai para R$ 300, e o orçamento fica vulnerável a qualquer despesa inesperada”, comenta o especialista.

Por isso, a capacidade de pagamento deve ser calculada sobre o que sobra depois das despesas essenciais e das dívidas existentes. O risco também cresce quando várias parcelas vencem na mesma semana ou quando a renda varia ao longo do mês, mesmo sem nenhuma dívida muito alta.

Prazo longo ou várias parcelas?

Prazos longos reduzem a prestação mensal, mas podem elevar o total pago e manter a renda comprometida por mais tempo. Já o acúmulo de parcelas pressiona o curto prazo e pode obrigar o consumidor a escolher quais contas pagar. O pagamento mínimo do cartão segue a mesma lógica: alivia o mês, mas o saldo restante é financiado com juros, e o custo cresce quando a prática se repete.

Como priorizar quando o dinheiro não dá

O primeiro passo é separar as despesas indispensáveis, como moradia, alimentação, energia e transporte. Depois, listar todas as dívidas, com valores, juros, vencimentos e consequências do atraso. Em geral, as de juros mais altos merecem atenção primeiro, mas é preciso considerar também os riscos do não pagamento e a necessidade de preservar serviços essenciais.

Quando as parcelas deixam de caber na renda, a renegociação é uma saída, desde que a nova condição reduza a pressão mensal sem criar outro compromisso fora do orçamento. Mais do que o valor contratado, o consumidor precisa saber quanto pagará por mês, por quanto tempo e como isso se encaixa na sua realidade.

Por Karoline Kantovick

Notícias / Portal da Economia

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