Segundo o FMI e o executivo José Maurício Caldeira, sócio e membro do Conselho de Administração da Colpar Brasil, a economia global enfrenta choques e inflação, reduzindo margens. Para o Brasil, os juros altos e o endividamento desafiam o crescimento.
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FMI: resiliência da economia global está diminuindo 

Em documento, Fundo alerta que mundo enfrenta riscos de conflitos, tensões comerciais, endividaJosé Maurício Caldeira, da Colpar Brasil, os juros elevados do país são entrave ao crescimento 

A economia mundial tem resistido a uma sequência de choques, mas a capacidade das nações de absorver novas turbulências está diminuindo. O alerta foi feito no documento final da 54ª reunião do Comitê Monetário e Financeiro Internacional (IMFC, na sigla em inglês), que encerrou as reuniões anuais do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, realizadas em meados de outubro, em Bangcoc, na Tailândia.  

As sucessivas turbulências dos últimos anos têm sido desafiadoras. “Vimos o desmantelamento da ordem geopolítica vigente há oito décadas, a eclosão de conflitos que impactam a resiliência energética dos países, além de prejuízos às cadeias de suprimentos, em função da pandemia e também de guerras”, enumera José Maurício Caldeira, sócio e membro do Conselho de Administração da Colpar Brasil, holding que atua em vários segmentos, como agronegócio, indústria e urbanismo. “Esses acontecimentos têm reflexos diretos na economia dos países, que precisam superar as dificuldades para seguir crescendo”, diz Caldeira. 

Para enfrentar as adversidades e os riscos à atividade global, o documento do FMI pede aos países a adoção de políticas econômicas consistentes, a reconstrução das reservas fiscais, a preservação da estabilidade de preços e maior cooperação entre as nações. 

A avaliação é reforçada pelo World Economic Outlook, relatório de perspectivas econômicas divulgado pelo FMI durante o encontro. A instituição projeta crescimento mundial de 3,1% em 2026, seguido de uma recuperação para 3,4% em 2027. A inflação global, por sua vez, deverá subir para 4,7% neste ano e recuar para 4,1% no próximo. “A inflação, hoje, é um problema mundial”, pontua José Maurício Caldeira. 

Os números, porém, escondem diferenças entre as economias: países beneficiados pelo ciclo de investimentos em inteligência artificial (IA) e por condições comerciais favoráveis apresentam perspectivas melhores do que importadores de energia e economias de baixa renda. Uma escalada das tensões entre os países pode agravar a insegurança energética e alimentar, destaca o FMI, sobretudo nas localidades mais pobres e vulneráveis. 

O documento também chama a atenção para os riscos associados ao endividamento público. O aumento dos rendimentos dos títulos soberanos nas principais economias, combinado à elevada dívida e às grandes necessidades de refinanciamento de diversos países, pode encarecer o crédito e ampliar as vulnerabilidades financeiras. Por isso, o comitê defende que os governos avancem na consolidação fiscal e adotem marcos orçamentários de médio prazo confiáveis, capazes de assegurar a sustentabilidade da dívida e recompor sua capacidade de reação a crises. 

O ajuste, segundo o documento, deve preservar os investimentos prioritários para a produtividade e o crescimento, assim como a proteção dos grupos mais vulneráveis. A recomendação está alinhada ao relatório econômico do FMI, que considera mais eficiente o uso de transferências temporárias e direcionadas à população de menor renda do que medidas generalizadas de contenção de preços, que podem custar mais aos cofres públicos e distorcer os sinais do mercado. 

Na política monetária, a orientação é manter o compromisso com a estabilidade de preços, com decisões baseadas nos dados econômicos e comunicadas de forma clara. O Fundo também reafirma que a independência dos bancos centrais é essencial para a credibilidade das políticas e para manter as expectativas de inflação ancoradas. 

A inteligência artificial ocupa posição dúbia no contexto atual. O avanço tecnológico tem impulsionado investimentos e comércio e pode elevar a produtividade, mas seus benefícios tendem a se distribuir de maneira desigual. Uma revisão das expectativas de rentabilidade da IA pode provocar correções nos mercados financeiros, enquanto a concentração dos ganhos em determinadas economias e empresas pode ampliar disparidades. “O desafio das empresas será transformar o avanço tecnológico em ganhos sustentáveis de produtividade e competitividade em um ambiente econômico cada vez mais complexo”, observa José Maurício Caldeira. 

Segundo o FMI e o executivo José Maurício Caldeira, sócio e membro do Conselho de Administração da Colpar Brasil, a economia global enfrenta choques e inflação, reduzindo margens. Para o Brasil, os juros altos e o endividamento desafiam o crescimento.
José Maurício Caldeira, sócio e membro do Conselho de Administração da Colpar Brasil 

Para o Brasil, o cenário descrito pelo FMI reforça o desafio de conciliar a desaceleração da atividade econômica com o controle da inflação e a sustentabilidade das contas públicas. A projeção de crescimento do PIB brasileiro foi reduzida para 2,2% em 2026, ante estimativa anterior de 2,4%. Para 2027, a previsão também caiu, de 2,2% para 1,9% – ainda assim, a expectativa é que o país volte a ser a oitava economia do mundo no próximo ano. 

Ou seja, o Fundo prevê que a economia brasileira vai rodar num patamar inferior à mundial. “Os juros muito altos têm penalizado a atividade econômica no Brasil. Tanto as famílias quanto as empresas estão muito endividadas”, ressalta José Maurício Caldeira, lembrando que são frequentes as notícias de companhias em dificuldades, recorrendo à recuperação judicial ou extrajudicial. 

A situação fiscal é outro ponto de atenção. A combinação de dívida pública elevada, custo crescente dos juros e despesas obrigatórias limita a margem do governo para ampliar investimentos e responder a novos choques. A orientação do FMI para recompor reservas fiscais e adotar trajetórias críveis de médio prazo tem, portanto, relevância direta para o Brasil. No relatório da consulta anual sobre o país, publicado em julho, a instituição já havia apontado a necessidade de conter a trajetória da dívida e elevar a produtividade, além de destacar que os custos de financiamento e as restrições estruturais dificultam o investimento privado. 

A conjuntura internacional também apresenta efeitos contraditórios para a economia brasileira. Como exportador líquido de petróleo e gás, o país pode se beneficiar de preços internacionais mais altos, com ganhos para as receitas externas e fiscais. Em contrapartida, a elevação dos custos de energia e fertilizantes pode pressionar a inflação e encarecer a produção, especialmente no agronegócio.  

Além disso, a manutenção de juros elevados nas principais economias também pode tornar o financiamento externo mais caro e aumentar a volatilidade dos mercados. Nesse contexto, o desafio brasileiro será aproveitar as oportunidades de exportação e de investimento em novas tecnologias sem perder de vista a estabilidade de preços, o equilíbrio fiscal e a necessidade de elevar a produtividade. 

“A mensagem central do encontro é que a resiliência global demonstrada até agora não deve ser confundida com segurança”, resume José Maurício Caldeira. “O desafio dos governos para ter crescimento sustentável é conseguir preservar a estabilidade macroeconômica e coordenar respostas aos riscos que ultrapassam as fronteiras nacionais.” 

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