Economia prateada

Economia prateada deve movimentar R$ 3,8 trilhões em 20 anos

Cláudia Danienne é empresária com mais de 50 anos, especialista em Gente & Gestão e lançou a startup Somos 50+ para ser um hub de conhecimentos e experiências no setor. 

A chamada economia prateada, impulsionada pelo público com mais de 50 anos, deve movimentar cerca de R$ 3,8 trilhões nos próximos 20 anos, segundo estudo Data8. “Ainda assim, tendo em vista o grande potencial, a maioria das empresas brasileiras segue operando com premissas obsoletas: carreiras com “prazo de validade”, comunicação focada quase exclusivamente em jovens, e pouca intencionalidade na diversidade etária. O descompasso é gritante e custoso”, de acordo com a especialista em Gente & Gestão, Cláudia Danienne, também sócia-fundadora da startup Somos 50+ e chairperson do Comitê de Pessoas da Amcham Brasil no Rio de Janeiro.

Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) indicam que, até 2030, uma em cada seis pessoas no mundo terá 60 anos ou mais. No Brasil, o Censo 2022 do IBGE mostra que já são 54 milhões de pessoas com mais de 50 anos, um crescimento de 57% da população idosa entre 2010 e 2022. Simultaneamente, esse grupo concentra uma fatia relevante da renda nacional, apresenta maior fidelidade às marcas e está cada vez mais conectado digitalmente.

“A maturidade mudou, mas o mercado ainda não acompanhou. Temos milhões de pessoas ativas com mais de 50 anos, produtivas e com alto potencial de consumo, subaproveitadas em posições-chave nas empresas e quase invisíveis nas estratégias de negócios”, afirma Cláudia Danienne, psicóloga organizacional com quase 30 anos de experiência em gestão de pessoas, com especializações em Harvard e outras instituições de renome.

Segundo Cláudia, há pelo menos quatro movimentos principais que geram valor direto para a economia prateada e que a maioria das corporações ainda não está capturando. São eles:

  1. Preservação de capital intelectual e melhor tomada de decisão: Empresas que mantêm uma lógica de “expulsão silenciosa” de profissionais mais velhos correm o risco de perder capital intelectual crítico, história, experiências e visão estratégica. Pesquisas mostram que times intergeracionais tendem a tomar decisões melhores e gerir riscos com mais maturidade. O resultado é um ambiente mais diverso em repertório e mais engajado. Investimentos em programas de reinvenção profissional, políticas de diversidade etária com metas claros e projetos de trocas intergeracionais (incluindo mentoria reversa) geram retorno direto em qualidade de decisão.
  2. Aceleração da inovação e novos mercados: A economia prateada abre espaço em segmentos como saúde, bem-estar, educação continuada, fintech, moradia, turismo e tecnologia adaptativa. Mas muitos produtos continuam sendo pensados a partir de um “usuário padrão”. Há oportunidade estruturada para empresas que incluem pessoas 50+ em pesquisas, testes de produto e painéis de consumidores. “Quando a empresa tira o público mais velho do lugar de ‘segmento residual’ e o coloca como protagonista de determinadas jornadas, ela passa a enxergar oportunidades que antes nem apareciam nas reuniões”, explica a sócia-fundadora da Somos 50+.
  3. Fortalecimento da marca empregadora e coerência em ESG: Em um momento em que as empresas são cobradas por coerência entre discurso e prática, a forma como tratam colaboradores 50+ se tornou um termômetro relevante. Há atenção crescente sobre diversidade etária em posições de liderança, como são conduzidos desligamentos na maturidade, e se campanhas de marketing incluem esse público. Empresas que alinham políticas internas e narrativas externas fortalecem marca empregadora, ampliam identificação com diversas gerações e avançam em pilares centrais de ESG, especialmente no “S” (social), frequentemente negligenciado.
  4. Sustentabilidade do negócio e gestão de risco demográfico: A mudança demográfica impacta planejamento de previdência, políticas de saúde e bem-estar, produtividade, absenteísmo, rotatividade e prioridades de investimento em mercados em expansão. Olhar apenas o custo imediato de manter profissionais mais velhos, sem considerar impacto em risco, reputação e acesso a novos mercados, é uma visão míope. “A longevidade é um tema de sustentabilidade do negócio. As empresas que entenderem isso primeiro terão vantagem competitiva”, resume Claudia.

O relógio está marcando

Enquanto governos e organismos internacionais discutem políticas públicas para envelhecimento ativo, o setor privado começa a ser pressionado a rever suas premissas. O desafio, agora, é sair do discurso genérico de “valorização da experiência” para programas concretos de inclusão etária e para a exploração estruturada da economia prateada.

“Viver é evoluir e a vida exige continuamente adaptações”, afirma Claudia. “O mercado já está mudando. A pergunta para cada um de nós, atentos a nossa atitude é se vamos apenas reagir ou se vamos liderar essa transformação”.

Notícias / Portal da Economia

Posts Similares