Dentro da mina que abastece o mundo da tecnologia — e financia os rebeldes do Congo
O minério de coltan, essencial para dispositivos como celulares e computadores, é extraído por trabalhadores precarizados (incluindo crianças) na cidade de Rubaya, no Congo
Sob o olhar atento dos rebeldes do M23, nas colinas que cercam a cidade congolesa de Rubaya, uma fila de homens de botas de borracha carrega sacos cheios de pedras esmagadas por trilhas sinuosas escavadas nas encostas.
Os trabalhadores estão transportando minério de coltan, componente que alimenta o mundo moderno. O mineral será carregado em motocicletas e, eventualmente, enviado a milhares de quilômetros de distância, para a Ásia. Lá, é processado em tântalo, um metal resistente ao calor que custa mais de US$ 300 por quilo e é altamente demandado por fabricantes de celulares, computadores, dispositivos aeroespaciais e turbinas a gás.
Rubaya é responsável por cerca de 15% da produção mundial de coltan, toda extraída manualmente por locais empobrecidos que ganham alguns dólares por dia. O controle desta mina é o maior prêmio em um conflito de longa data nesta nação da África Central.
A área foi tomada em abril de 2024 pelo M23, grupo rebelde que, segundo as Nações Unidas, tem saqueado as riquezas da cidade para financiar sua insurgência, com apoio do governo de Ruanda. Altamente armados, os rebeldes, cujo objetivo declarado é derrubar o governo em Kinshasa e garantir a segurança da minoria tutsi congolesa, conquistaram ainda mais territórios ricos em minerais no leste da República Democrática do Congo (RDC) neste ano.
A região e sua riqueza mineral estão sob os holofotes, já que o M23 e o governo da República Democrática do Congo prometeram assinar um acordo de paz em uma cerimônia na capital do Catar, Doha, ainda este mês. Os Estados Unidos estão mediando conversas paralelas entre Congo e Ruanda, prometendo potenciais bilhões de dólares em investimentos caso as hostilidades cessem.
O Departamento do Tesouro dos EUA sancionou na terça-feira (12) outros supostos participantes do contrabando de minerais no Congo, incluindo a PARECO-FF, uma milícia pró-governo congolesa que, segundo os EUA, controlou o local de mineração de Rubaya de 2022 até o início de 2024, antes da tomada pelo M23.
A PARECO-FF não foi localizada para comentar.
Questionado em uma coletiva de imprensa sobre por que Washington mirou a PARECO-FF e não o M23, um alto funcionário do governo dos EUA observou que o M23 está sob sanções americanas desde 2013 por alimentar conflitos na região.
“O Departamento do Tesouro não hesitará em agir contra grupos que negam aos Estados Unidos e seus aliados o acesso a minerais críticos vitais para nossa defesa nacional”, disse John K. Hurley, subsecretário do Tesouro para terrorismo e inteligência financeira, em comunicado separado.
Jason Stearns, ex-investigador da ONU no Congo, disse que o fato de o M23 não ter sido alvo das novas sanções relacionadas à mineração foi surpreendente, e acrescentou que a medida pode ter como objetivo manter os diálogos de Doha nos trilhos.
O avanço do M23 representa a ameaça mais séria ao governo de Kinshasa em pelo menos duas décadas de conflito, cuja origem remonta ao genocídio de Ruanda em 1994, quando cerca de 1 milhão de tutsis ruandeses foram mortos por milícias hutus.
O governo de Ruanda há muito nega que trafique coltan saqueado do Congo ou que apoie o M23. Mas o partido governante de Ruanda, liderado majoritariamente por tutsis, compartilha das mesmas preocupações dos insurgentes do M23 sobre a suposta ameaça representada por grupos hutus rivais que operam no leste do Congo. Um relatório da ONU de 3 de julho, revisado pela Reuters, afirma que, em abril, Ruanda havia posicionado entre 1.000 e 1.500 soldados em áreas controladas por rebeldes no Congo.
O M23 agora controla duas cidades congolesas importantes — Goma e Bukavu — na fronteira com Ruanda. Investigadores da ONU afirmam que é por essas cidades que os minerais congoleses são ilegalmente transportados para Ruanda, muitas vezes à noite, onde o minério é misturado à produção de coltan ruandesa numa tentativa de mascarar sua origem antes da exportação.
O M23 e os governos de Ruanda e do Congo não responderam aos pedidos de comentário. Autoridades congolesas acusam repetidamente Ruanda de fomentar o conflito para saquear a riqueza mineral do Congo.
De acordo com um relatório da ONU de dezembro, o volume do comércio atingiu novos patamares após a captura de Rubaya pelo M23. Os rebeldes estabeleceram uma administração paralela que controla as atividades de mineração, comércio, transporte e taxação dos minerais produzidos ali, segundo o relatório.
Repórteres da Reuters visitaram Rubaya em março deste ano e foram informados por autoridades do M23 que os rebeldes impuseram um imposto de 15% sobre o valor do coltan comprado por comerciantes dos mineiros informais que atuam na área. O M23 arrecadou US$ 800 mil por mês com essas taxas aplicadas à mineração de coltan no leste do Congo, segundo o relatório da ONU.
Lama e motocicletas
Apenas chegar ao labirinto de poços de Rubaya, que lembra uma colmeia, já é uma tarefa difícil. Os jornalistas da Reuters que visitaram os locais de mineração em março precisaram abandonar seus Land Cruisers com tração nas quatro rodas após os veículos atolarem na estrada lamacenta vinda de Goma. Eles caminharam 5 quilômetros até a cidade e depois subiram na garupa de motocicletas com autoridades rebeldes até os poços.
A atividade em Rubaya começa antes do amanhecer, quando milhares de mineiros descem aos poços escavados nas colinas onduladas da província de Kivu do Norte, onde muitos trabalham em turnos de 12 horas.
Os túneis podem atingir até 15 metros de profundidade. Uma vez que os fragmentos de minério são extraídos, carregadores transportam os sacos até a superfície, onde trabalhadores cavaram bacias rasas preenchidas com água. Ali, outros trabalhadores — incluindo mulheres e crianças — lavam o minério e o separam da areia e de outros detritos antes de deixá-lo ao sol para secar.
Durante toda a visita à área de mineração, os jornalistas foram supervisionados por integrantes desarmados do M23. Um repórter viu um oficial rebelde anotando em um caderno quantos sacos cada carregador — coberto por uma fina poeira branca — levava a cada ponto de coleta. Uma vez seco, o minério é empilhado nas costas de motocicletas que o transportam até um dos vários depósitos na cidade próxima de Rubaya, onde é vendido a comerciantes.
Com um acompanhante do M23 escutando, Pascal Mugisha Nsabimana, um mineiro de 32 anos, disse à Reuters que trabalhar sob ocupação rebelde era preferível a atuar sob a supervisão do exército congolês e seus aliados, que fugiram quando o M23 tomou a área no ano passado.
Antes, “havia muito assédio, muitos tipos diferentes de impostos e, muitas vezes, nós, os escavadores, não éramos pagos. E mesmo quando recebíamos algo, era muito pouco”, disse o mineiro. Ele acrescentou que sua diária atual ao menos triplicou, chegando a 15 mil francos congoleses (US$ 5,15), com o M23 no comando.
Nos primeiros meses após a tomada de Rubaya pelo M23, em abril de 2024, contrabandistas usavam motocicletas para levar o minério até Ruanda por rotas secundárias, evitando a fiscalização das forças congolesas remanescentes na fronteira, segundo mais de uma dúzia de fontes familiarizadas com a situação, incluindo contrabandistas atuais e antigos, mineiros e empresários locais. A jornada podia levar um dia inteiro, segundo dois ex-contrabandistas que transportaram coltan dessa forma até o ano passado. Eles disseram que carregavam suas motos com três sacos de 50 quilos por viagem e recebiam cerca de US$ 34 por entrega aos comerciantes de coltan.
Mas as mudanças implementadas pelo M23 se mostraram um divisor de águas em termos de eficiência, disseram nove dessas pessoas. As motocicletas não são mais o principal meio de transporte e são usadas apenas para levar o coltan da mina até a cidade de Rubaya. De lá, o minério é carregado em SUVs, caminhonetes e outros veículos com capacidade de transporte entre duas e vinte toneladas, segundo as fontes e o relatório da ONU de julho. O sistema também é mais rápido. Desde que o M23 expulsou as tropas congolesas de Goma e assumiu o controle da cidade fronteiriça, os caminhões com coltan agora podem passar livremente por vias asfaltadas rumo a Ruanda, reduzindo drasticamente o tempo de transporte, disseram as fontes.
Especialistas da ONU e ativistas de direitos humanos há muito alertam que os lucros da mineração ilegal financiam conflitos. Eles afirmam que o comércio trouxe pouca riqueza para os habitantes locais e que o trabalho infantil é comum. A Reuters testemunhou pelo menos uma dúzia de crianças trabalhando na mina de Rubaya: meninos pequenos entravam nos túneis para retirar minério e levá-lo às bacias onde meninas trabalhavam ao lado de adultos lavando e secando o coltan.
Gregory Mthembu-Salter, ex-especialista da ONU no Congo e hoje consultor em minerais de conflito, disse que os amplos esforços da indústria de mineração, agências da ONU e ONGs iniciados por volta de 2010 para limpar a cadeia de suprimentos da região e prevenir abusos de direitos humanos fracassaram em grande parte.
Investidores americanos de olho na riqueza
Alguns empresários dos Estados Unidos também estão de olho na fortuna de coltan de Rubaya, enquanto o presidente Donald Trump tenta intermediar um acordo de paz para encerrar o conflito e promover o desenvolvimento das riquezas minerais da região. No Congo, essas riquezas incluem enormes reservas de cobalto, ouro, cobre, lítio e diamantes, além do coltan. Atualmente, o setor de mineração formal do país é dominado por empresas chinesas.
Gentry Beach, gestor de fundos de hedge do Texas, presidente da firma de investimentos America First Global e um dos arrecadadores de fundos para a campanha de Trump em 2016, fazia parte de um consórcio que buscava negociar os direitos da mina de Rubaya, segundo uma fonte com conhecimento direto do assunto. O jornal Financial Times já havia noticiado anteriormente o interesse de Gentry no coltan do Congo.
Essa fonte disse à Reuters que o grupo de Beach propôs ao governo congolês assumir uma participação majoritária na mina, com o governo de Kinshasa mantendo 30% de participação.
Beach confirmou seu interesse no projeto à Reuters, mas se recusou a fornecer mais detalhes.
Alguns parlamentares norte-americanos estão se opondo à iniciativa. Em uma carta de 8 de agosto dirigida a Trump e ao secretário de Estado Marco Rubio, mais de 50 congressistas democratas criticaram o que consideraram uma falta de transparência nas negociações com a República Democrática do Congo. Eles também expressaram preocupação com um possível conflito de interesses, dado que um aliado de Trump estaria buscando obter os direitos de exploração da mina de Rubaya.
A vice-secretária de imprensa da Casa Branca, Anna Kelly, afirmou em um comunicado por e-mail em 5 de agosto que o acordo entre Congo e Ruanda, mediado por Trump, tem potencial para promover uma paz duradoura e estabilidade na região. Segundo ela, a visão do presidente é de um “resultado ganha-ganha, no qual todas as partes se beneficiam — econômica e politicamente — por meio da cooperação e da prosperidade compartilhada”. Ela não respondeu a um pedido de comentário adicional sobre a carta dos parlamentares democratas.
O Departamento de Estado dos EUA não comentou. Em 1º de agosto, o órgão disse em comunicado que está comprometido em apoiar os esforços de Ruanda e do Congo para avançar na segurança e na cooperação econômica. Chefes de Estado seriam em breve convidados para uma cúpula em Washington, segundo o comunicado, que não entrou em mais detalhes.
O acordo com apoio dos EUA não inclui o M23. O grupo rebelde faz parte de uma mediação paralela, liderada pelo Catar, que busca pôr fim às hostilidades. O sucesso dessas conversas em Doha é considerado essencial para uma paz duradoura — e para tornar Rubaya segura para investimentos e desenvolvimento por empresas mineradoras ocidentais.
Alguns diplomatas e analistas, no entanto, são céticos quanto às chances de uma resolução rápida.
Congo e os rebeldes do M23 prometeram em Doha chegar a um acordo de paz até 18 de agosto. Mas o progresso tem sido comprometido pela morte de pelo menos 319 civis no leste do Congo no mês passado, segundo a ONU, que afirma que os ataques foram realizados pelo M23.
A Reuters não conseguiu confirmar de forma independente essas mortes. O líder do M23, Bertrand Bisimwa, disse à agência no mês passado que o grupo investigaria, mas afirmou que os relatos de atrocidades podem fazer parte de uma “campanha de difamação” contra os insurgentes.
Enquanto isso, o acordo mediado pelos EUA prevê a retirada das tropas ruandesas do Congo. Mas o presidente de Ruanda, Paul Kagame, afirmou no mês passado que não tem certeza de que o acordo será cumprido.
Kagame disse que o Congo precisa primeiro cumprir sua promessa de neutralizar as Forças Democráticas para a Libertação de Ruanda (FDLR), uma milícia hutu baseada no leste congolês e ligada ao genocídio de Ruanda, que Kigali considera uma ameaça existencial.
Josaphat Musamba, pesquisador congolês e doutorando na Universidade de Ghent, na Bélgica, disse que suprimir a milícia seria uma tarefa difícil para o exército da RDC, que já não está presente em grandes partes do território controlado pelo M23.
“É difícil neutralizar as FDLR enquanto o M23 estiver lá e o exército congolês não tiver sido redistribuído”, afirmou Musamba. Ele descreveu as duas iniciativas de paz como esforços “fragmentados” que não estão lidando com “a realidade em campo”.
Outra tarefa monumental seria transformar o atual e rudimentar sistema de extração de coltan de Rubaya em uma operação moderna, disse um diplomata sênior que acompanha de perto os acontecimentos.
“Ninguém fala sobre a viabilidade de conceder essas licenças de mineração e gerir essas concessões, especialmente considerando que toda a mina funciona por meio da mineração artesanal”, realizada quase totalmente de forma manual, disse o diplomata.
Fonte: Forbes